domingo, 6 de outubro de 2013

Suicídio

Não se preocupe. Esta não é uma carta de suicídio. Não tenho a menor intenção de fazer isso, apesar das constantes demonstrações de desamor com a minha própria pessoa. Não pretendo passar uma corda em volta do meu pescoço. 


Além do mais, jamais escreveria um bilhete desses para ser lido por desconhecidos na internet. Se o fizesse, escreveria notas a mão, as quais destinaria à pessoas especificas. A mensagem seria curta e breve, seguindo meu padrão minimalista. Nela só constaria os dizeres “Você é culpado”. “Lide com isto”, responderia a consciência.


Minha intenção aqui é só falar sobre o suicídio, um tabu que poucos se propõem a discutir. Geralmente, quando se fala em suicídio, a discussão é simplificada ao máximo. A culpa é toda colocada na pessoa que se mata, um maluco, um depressivo, um solitário, um miserável. Só que a questão vai muito além disso.
Antes de prosseguir, preciso fazer uma ressalva. Estou falando da versão clássica do suicídio, aquela em que a pessoa decidi pôr fim a sua própria vida, sem um motivo aparente. Logo, não estou me referindo a morte por honra, auto sacrifício ou protesto. O suicídio tratado aqui é o, digamos, “menos nobre” de todos.


Em relação ao suicídio, um ponto a ser pensado é o motivo. Nenhum outro ser vivo faz isso. O suicídio é uma prerrogativa humana. Porque então um homem se suicida? Fiz essa pergunta a mim mesmo, quando li uma entrevista com um dos amigos do Champignon, baixista da banda Charlie Brown Jr., que cometeu suicídio. O entrevistado disse algo na linha de “Não dá para gente entender o que leva uma pessoa a deixar de se importar com a própria vida, a ponto de tirá-la”.
As causas mais comuns para o suicídio são transtornos mentais, depressão, alcoolismo, vício em drogas, dificuldades financeiras, problemas emocionais. Coisas do homem moderno. Contudo, além de existirem outras causas, mesmo dentro das citadas há variações e até combinações entre elas. É difícil taxar, etiquetar um suicida. Só o próprio sabe porque se matou.
No filme Control, por exemplo, que fala sobre a vida de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, percebi que vários motivos poderiam tê-lo levado ao suicídio. É impossível saber o que exatamente leva um cara de 23 anos, com uma carreira toda pela frente, a se matar. Mas os motivos estavam lá: os ataques epiléticos, a depressão, o fim do casamento com a esposa, ser pai, as pressões de estar em uma banda. 


Coincidentemente, as duas pessoas que citei seguem o triste clichê do roqueiro suicida. No rock não faltam exemplos de casos de suicídio. Trata-se de um universo peculiar, com ideais de contracultura, indivíduos desajustados e idolatria a posicionamento questionáveis. Kurt Cobain, do Nirvana, escreveu uma canção chamada I Hate Myself And I Want To Die (Eu me odeio e quero morrer). Layne Staley, em um verso de um dos hits do Alice in Chains, dizia “If I can’t be my own, I’d feel better dead” (Se não posso ser eu mesmo, eu me sentiria melhor morto). Ambos se suicidaram. Os sinais estão sempre ali, evidentes, mas preferimos aplaudir o espetáculo da tragédia humana.


Contudo, um suicídio traz implicações em outras pessoas. É um ato solitário, mas não é. Afinal, nenhum homem é uma ilha. Até o mais recluso dos suicidas possui uma rede de relações, que é afetada após a tragédia. O simples fato de ter conhecido o suicida já é capaz de abalar o emocional de um ser humano com o mínimo de sensibilidade e empatia. Pior ainda, quando acontece com algum familiar.
No caso do Champignon, vi muitas pessoas nas redes sociais chamando-o de covarde, por ter se matado deixando viúva sua mulher grávida. Vou parecer mal, mas isso precisa ser falado. A vida é um bem pessoal e intransferível. É um pensamento simplista, o qual as pessoas preferem esquecer. Sei que o ser humano é um ser social. Sei que vivemos em uma cultura de casamentos e relacionamentos sérios. Porém, no fundo, estamos todos sozinhos. Não é agradável, mas é bom ficar ciente disso.


Boa parte do repúdio que a sociedade tem a respeito do suicídio está relacionado à religião. De acordo com o cristianismo, suicidar-se é comprar uma passagem para o inferno, vide Constantine. Para os católicos, trata-se de uma ofensa grave contra a santidade da vida.


Não estou defendendo quem comete suicídio. Só proponho uma melhor compreensão, observando o tema através de outros pontos de vista e variáveis. O suicídio é a décima maior causa de mortes no mundo, mas ninguém faz campanha sobre isso. A mídia não toca no assunto, com medo de popularizar um hábito que pode tornar-se tentador para pessoas sem esperança na vida. Mas sabemos muito bem que isso acontece. Vários estudantes do Rio de Janeiro sabem que a Uerj é o point de suicídio mais badalado da cidade. Agora o porquê, não é discutido.
Uma vez, assisti a história de um velho escritor que vivia isolado em um sítio e decidiu se suicidar. Longe de tudo e todos, o homem dedicava seus dias de velhice a ler livros. Foi acometido por uma doença. Perdeu a visão. Preferiu se matar a viver daquele jeito. Para que julgá-lo ou falar sobre vontade divina? Essa foi a escolha do homem.
Cada um faz o que quiser com a própria vida. Não temos direito de julgar aqueles que escolhem um atalho para o fim, chamado suicídio. Podemos lamentar, compadecer, mas condenar, não. Cada um de nós lida com o mundo de forma diferente. É tolice generalizar dizendo que todos tem que ser fortes, superar as dificuldades e continuar vivendo. Tem gente que simplesmente não quer. Que não aguenta mais. Isso é uma escolha pessoal. Lamentável, mas individual.
O comportamento suicida relaciona-se com a incapacidade do indivíduo de encontrar soluções para seus problemas. A saída encontrada é a morte, uma viagem sem volta. Dor para os que ficam. Alívio para os que vão. A vida é uma só, mas tem gente disposta a debandá-la. Para quem tem uma vida maravilinda, isso pode soar absurdo. Porém, para outras pessoas, a vida é encarada como um sofrimento contínuo. Essas pessoas querem se libertas da vida. O corpo é a última prisão. Faça as contas.

PS: Reitero: não sou suicida. Pretendo viver até 2050. Isso se não houver acidentes de percurso, é claro.