sábado, 2 de maio de 2015

Dois Ratos

Odeio ratos. Não sei a diferença entre rato, ratazana e camundongo, muito menos desejo aprender a distingui-los. Não sou biólogo. Para mim são todos ratos, diga-se, criaturas repugnantes intrinsecamente relacionadas à sujeira. Esses seres constituem-se como uma praga urbana, invadindo casas, roendo objetos, comendo alimentos, trazendo doenças, e, claro, assustando as donas (e donos, para não soar machista) de casa. Por conta desses motivos, sempre achei surreal o fato de fazerem tantos desenhos animados com personagens fofinhos e carismáticos baseados em ratos. Baita bicho nojento! Mesmo assim, sei que apesar de tudo, eles são seres vivos, como nós os humanos, e todos os outros animais.


Sobre animais em geral, serei curto e grosso: não gosto e nem desgosto. Não sou do tipo de pessoa que para no meio da rua para fazer carinho em gato e cachorro, por exemplo. Deixo os bichos quietos. Eles lá e eu cá. Acredite, de alguma forma na minha cabeça, manter distância é uma forma de demonstrar respeito. Tento me pôr no lugar deles. Se eu fosse um animal, não queria que nenhum humano carente viesse me encher o saco como se eu fosse um brinquedinho criado para animá-lo. Uma das desvantagens de ser um animal é que diferente dos humanos, os bichos não podem dizer às pessoas o quanto elas são chatas e inconvenientes.


Voltando ao papo de roedores, no começo deste ano um rato conseguiu entrar na cozinha da minha casa. Ele ficou durante cerca de uma semana aprontando das suas, aparecendo e se escondendo quando percebia a presença de alguém. Até que em um belo dia, conseguimos encurralar o bicho e não deu outra: tive que ser o seu carrasco. Não há forma suave de se dizer isso. Tirei a vida daquele pequeno ser vivo. Não quero parecer fresco, mas aquela ação me doeu um pouco por dentro. Me senti mal comigo mesmo, vendo o rato lá, na minha frente, guinchando, debatendo-se de dor. A cada golpe de vassoura que eu dava eu podia sentir sua vida indo embora. Tentei acabar com seu sofrimento o mais rápido possível, pois aquilo não me dava prazer algum. Porém, sabia que se eu deixasse vivo o rato, um ser irracional, ele iria voltar a se esconder na cozinha e causar mais estragos, ao invés de simplesmente sair pela porta.


Matar um rato para mim foi uma experiência chocante. Anteriormente eu só havia matado insetos. Foi a primeira e espero que última vez que tive que matar um ser vivo de carne e osso. O caso me lembrou um episódio que vi na série animada do Batman. Em uma das aventuras, o homem-morcego teve que lutar contra uma pantera. Apesar de ser apenas um desenho, fiquei apreensivo imaginando se o Batman iria matá-la ou não. Meu desejo era que ele não a matasse, afinal era só um animal carnívoro agindo conforme seus instintos. Por outro lado, o herói precisaria se defender de alguma forma. No final das contas o Batman resolveu o problema, tirando do cinto de utilidades um gás sonífero e colocando a pantera para dormir. Sei que a comparação está em um nível colossal de diferença, mas a lição principal que se tira é que não sou o Batman. Nunca tenho planos ou preparo. A vida gosta de me lembrar disso. 


Na mesma época em que matei esse rato estreou a nova temporada de JoJo’s Bizarre Adventure: Stardust Crusaders. Não pretendo me alongar explicando a história do anime. O que houve de relevante com o caso foi o novo encerramento, com presságios do que viria a acontecer futuramente na trama. O vídeo oferece indícios sutis de que nem todos os personagens iriam sobreviver ao final da jornada, algo que fica claro para quem leu o mangá e já conhece o desfecho da saga. Em uma parte é mostrado um rio, no qual que em uma margem estão os sobreviventes e na outra os que irão morrer na história. Na cultura egípcia, estar do outro lado do rio, simboliza fazer a passagem para o outro mundo. 


Os ditos personagens são protagonistas da animação. Não vejo problema algum matar seres da ficção, mas quando eles são os mocinhos, às vezes, a partida permanente nos deixa meio abalados. Principalmente quando são personagens de séries ou animes que, diferente de filmes, passamos meses assistindo. Pode soar bobagem, mas por passar tanto tempo acompanhando suas aventuras a gente acaba estabelecendo um laço, uma empatia, com os caras. Como não sou spoilerfóbico fui pesquisar para saber como os ditos personagens morreriam e acabei me surpreendendo com a brutalidade de todas as mortes. É bom deixar claro que em JoJo, desde a primeira temporada fica claro que nem o protagonista está salvo de morrer. Nem todo anime é como Dragon Ball em que os personagens morrem e ressuscitam o tempo todo. Acabei descobrindo que os personagens de JoJo os quais pesquisei seriam exterminados por seus inimigos, de forma fria, como se fossem insetos. Ou ratos. Embora ficcionais, os personagens eram representações de pessoas, algo que me fez questionar o valor da vida. Será que a vida de qualquer outro ser vivo vale menos que a de um homem?


Recentemente, apareceu outro rato aqui em casa. Foi quase a mesma história, só que com um final diferente, não necessariamente feliz. O rato apareceu na cozinha, ficou dias lá, e depois deu um jeito de entrar no meu quarto. Ele ficou uns três dias escondido atrás do armário, até aparecer, sair do quarto, passar pela sala e sair dela por debaixo da porta, como se fosse o Senhor Fantástico. No dia seguinte ele havia reaparecido na cozinha. Dessa vez, morto, preso a fiação elétrica da lâmpada no teto, com o sangue pingado no chão. Como ele chegou lá, não faço a menor ideia. Mas pelo menos, dessa vez, não fui eu que matei. Foi o destino (apesar de não acreditar nessas coisas) daquela pobre criatura. Embora me enojem, detesto matar ratos. Deixá-los vivos é duplamente benéfico. Além de não ter peso na consciência você não precisa pegar em rato morto para jogá-lo no lixo. Mas, às vezes, não tem jeito: mesmo não sendo o carrasco, você pode acabar se tornando o coveiro.



PS: Vejam JoJo! Vale a pena. Só cuidado com os feels e as poses.