segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Ira Dos Vinte Anos Parte II

Meu aniversário é no dia 10 de setembro. Para mim essa época é sempre um momento de reflexão. Ano passado na época do meu aniversário escrevi um texto intitulado “A Ira Dos Vinte Anos”. Agora aqui estou escrevendo a segunda parte. Sei que vocês devem estar pensando que o correto deveria ser vinte e um anos. Tenho noção de que em breve oficialmente estarei um ano mais velho. Não sou como o Freddy Adu que há uma década diz ter vinte anos. Terei vinte e um anos com muito orgulho. Encare os “vinte anos” do título não como a minha idade atual, mas como um período que vai dos vinte até os vinte e nove anos, a década da minha juventude ou mocidade, se preferir. A pergunta que faço um ano depois é se ainda há motivo para ira.


Recapitulando o texto do ano anterior, eu disse que o motivo da minha ira eram as coisas ruins que frequentemente me aconteciam até então. Sentia-me irritado por me dar mal o tempo todo, tal qual um personagem caricato de série ou desenho animado, que a cada episódio é vítima de uma calamidade diferente. Isso ocorre por um só objetivo: fazer o público rir. Funciona. Desgraça de um, alegria dos outros. Como diria o Tim Maia “Na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”.


Andei pensando nos últimos dias sobre o que atualmente ainda me deixa irritado. Essa explicação que dei ano passado não cola mais. Tantas vezes ao longo do ano eu disse que me ferro, mas me divirto. É verdade. Divirto-me porque levo a quem quer que esteja lendo minhas humildes e singelas experiências de vida, histórias verdadeiras, cômicas, porém reais, sem a necessidade de fazer impressionar. Rir. É disso que as pessoas precisam. Do jeito que posso tento fazer a minha parte. Mesmo explorando a minha própria desgraça.
Meu pensamento mudou. O motivo que tenho para me sentir “irado” (irado no mal sentido e não no irado cool) em relação aos meus vinte anos é o de que sou jovem, mas não aproveito a vida da forma que eu gostaria aproveitar. E tenho consciência de que a juventude não é eterna. Sinto os finais de semana passarem inaproveitados, os rostos ao meu redor envelhecendo (o meu por genética continua o mesmo há anos!), minhas pretendentes antigas ingressando em relacionamentos sérios... Lógico que tenho minha parcela de culpa nisso. De não aproveitar a vida e só olhar ela passar.


Adoro ser um observador do mundo. Só que de vez em quando é necessário não só olhar. Deve-se mostrar presença e não só reclamar consigo mesmo, como sempre faço, esperando que alguém venha com uma solução mágica para os meus problemas. Ou que se interesse por eles. Quer algo? “Vá atrás”,  é o que dizem. Só que nisso, a lealdade que tenho em relação a minha personalidade interfere em certos momentos. Eu diria que ela até prejudica. É como se eu andasse por aí com um livrinho de regras iguais aos dos Padrinhos Mágicos, que me impede de fazer certas coisas. Isso para a minha “própria proteção”. Até que nisso aí, neste último ano, venho tendo um desempenho satisfatório. Não há necessidade de proteger-se dos outros o tempo todo. Enfim caiu a ficha de que as pessoas não lêem mentes e nem advinham pensamentos. Se há algo a dizer diga. Assim pude ter coragem para resolver alguns assuntos pendentes do passado, botar a cara à tapa de vez em quando, dizer “Não” para certas coisas etc. Nenhum feito digno do Super-Homem, mas mesmo assim bastante consideráveis para um mero terrestre introvertido sem superpoderes.


Mas não é só o lado afetivo. O relacionamento e o trato com as pessoas. Há o aspecto econômico da coisa, que até o presente momento não consegui resolver. Acredite, esse problema é bastante significativo. Nesse mundo não se faz nada sem dinheiro. Ninguém vive de favores. Não dá para desconsiderar que essa forma de vida te faz sentir impotente. Menos homem. Odeio dinheiro, mas preciso dele e continuarei precisando, a não ser que o escambo algum dia volte à moda. Certamente algum dia a coisa toda vai melhorar, mas o "agora" está tenso, eu diria até que insuportável. É o "agora" que estou vivendo. Daí a minha ira e a minha indagação: Até quando?


Até quando isso vai durar? Vai dar tudo certo? Aos trinta, certamente irei ter uma resposta. Até lá buscarei alcançar a felicidade, usando todas as forças ao meu alcance, sem prejudicar ninguém, é claro. Se até aos trinta eu não conseguir, desistirei de procurá-la e me conformarei a seguir com a vida medíocre, que até agora venho tendo. O suicídio está fora de cogitação. A presente ira dos meus vinte anos é isso. Incomodo-me por não usufruir a vida da maneira que eu gostaria. Não sou o único a ter esse problema. Mas acho justo me incomodar com isso. Que esse incômodo seja um ingrediente do processo de mudança, que espero chegar algum dia à minha vida.
Uma nota final. Em relação ao meu aniversário do ano anterior, eu gostaria de agradecer novamente aos que dele lembraram, me felicitando. É bom saber de vez em quando que não sou um fantasma que passa desapercebido pelos outros. Eu mesmo me esqueço que existo às vezes. Mas com uma palavra de carinho, um sorriso no rosto ou com um abraço sincero me sinto vivo novamente. E isso é bom demais. Até a terceira parte no ano que vem. Espero que com boas novidades.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma Crônica Cabeluda

O ser humano possui cabelo ao longo do corpo todo. Só que o cabelo da cabeça é especial, diferente do cabelo de outras partes do corpo. É inegável que ele recebe mais atenção nossa. Nele aplicamos diferentes cortes, tinturas, tratamentos, tranças, apliques, brilhos, massagens etc. Tudo isso faz parte da vaidade humana, a qual é predominante a vontade de se exibir para o próximo. Todo mundo gosta de ser notado e um cabelo bacana ajuda nisso. O cabelo serve como um cartão de visitas; ajuda a construir uma boa imagem pública e também pode refletir certos aspectos de nossa personalidade. É isso que pretendo discutir aqui hoje.
No primário e no ensino fundamental eu era sempre o carequinha da turma. Odiava aparecer nas segundas-feiras na sala de aula com a cabeça raspada, igual a uma versão afrodescendente do Kuririn do Dragon Ball. Ir todo mês ao barbeiro passar a máquina um na caixola era mais um dos decretos da ditadura materna. Esse era o corte mais limpo, rápido e barato que um plebeu ferrado que nem eu poderia ter. Não gostava muito dele porque me sentia exposto e reluzente que nem uma bola de praia de plástico.


Era curioso quando eles cresciam. Desde os onze anos eu tinha cabelos brancos. Os fios brancos se destacavam bastante entre os fios pretos e eram grossos, semelhantes às cerdas das escovas de dente. Tudo isso contribua para me auto-avaliar como um velho acabado, mesmo sendo ainda tão jovem. Por outro lado eu me divertia fazendo piadas de velho me usando como referência, chamando amigos meus de “meu jovem” e falando frases como “no meu tempo isso não tinha isso”.


Tenho várias teorias para essa minha precoce maturidade capilar, mas a explicação do aparecimento desses fios que considero mais palpável é a do meu estresse prematuro. Eu era estressado demais, graças à Matemática com seus cálculos, fórmulas e números infindáveis. Daí o surgimento dos cabelos brancos. Acho que por esse motivo resolvi estudar ciências humanas e olha que eu era razoavelmente bom em Matemática. Essa habilidade, porém, foi adquirida mais pelo temor de ser reprovado do que pelo prazer de aprender.
O que me incomodava muito era que o meu cabelo, somado ao meu comportamento introvertido, refletiam uma personalidade que nunca tive e que não desejava aparentar. Eu parecia muito sério e zen com o cabelo inteiramente raspado. Isso me incomodava porque minha aparência não mostrava o verdadeiro eu. Sou debochado e despretensioso e por esse motivo fico calado na maior parte das vezes, justamente para não bancar o idiota em momentos sérios, comprometendo toda e qualquer situação mais “adulta”.
O tempo foi passando e na época do ensino médio, me revoltei com essa rotina e parei de ir a barbearia todo mês cortar o cabelo. Durante um tempo deixei a juba crescer e fui a um salão fazer um permanente. Nunca mais repeti a experiência. Não que o resultado tenha ficado ruim; o problema é que não me agradou a experiência de ir a um salão de beleza com atendimento demorado e cabeleireiras tagarelas. Isso além do preço salgado cobrado por uma coisa tão efêmera e descartável que é o cabelo. Desde então faço meu próprio cabelo em casa, usando sempre a seguinte máxima “Se ficar muito ruim, vou ao barbeiro e passo a máquina nele todo”.
Por isso que ele fica sempre irregular. Meu cabelo é cheio de contrastes: algumas partes ficam macias e outras duras, algumas ficam lisas e outras enroladas. Dá-lhe inconstância capilar. É o que acontece quando você resolve brincar de cabeleireiro usando a si mesmo de cobaia. Desconsiderar o fato de não enxergar todos os ângulos da própria cabeça, torna a experiência semelhante à de dirigir um automóvel com os olhos tapados. Outro fato para somar às justificativas da irregularidade do meu cabelo é o de que cada setor da minha cabeça cresce num ritmo diferente. A lateral esquerda, por exemplo, cresce mais rápida do que todas as outras partes. Ao redor da cabeça tenho fios de cabelo de três, cinco ou sete centímetros de comprimento, isso os deixando crescer naturalmente, sem cortá-los. É praticamente uma progressão aritmética. O resultado final de tudo isso é um visual único; não de beleza, mas de pura tosquice.
Em uma época, com o excesso de cabelo nas laterais (e preguiça de cortar), eu prendia o cabelo com uma faixa preta semelhante a do jogador Drogba. Como não tenho o costume de me olhar direito no espelho, demorei para perceber que estava ridículo. Alguém próximo bem que podia ter me avisado, ao invés de ficar me apelidando de Rambo.
Mas acho que eu gosto de andar por aí com o penteado irregular. É legal deixar o pente na gaveta e andar pela rua com o cabelo descabelado diferente de todo mundo que anda com as mechas certinhas e penteadas. Deve ser assim que o Tim Burton e o Robert Smith do The Cure se sentem. Sinto que o cabelo bagunçado com os dedos reflete minha personalidade caótica e louca. E além do mais é bem divertido acordar de manhã com o cabelo para o alto igual ao do Astro Boy, algo que o cabelo curto cortado a máquina jamais permitiria.


Para a conclusão tenho um fato recente e triste para relatar. Minha última experiência capilar deu errado e fui aparar o cabelo na barbearia para ver se consertava o estrago. Na empolgação acabaram deixando meu cabelo curto demais. Com o visual de agora parece até que me alistei para o Exército. Nada contra os militares, mas não é o meu estilo. Não gosto. Pensei que havia deixado claro para a pessoa que só queria cortá-lo um pouco, mas nada disso: ela com a tesoura fez a festa no meu cabelo. Acho que os barbeiros sentem a minha falta de decisão, encaram-na como fraqueza e fazem o que bem querem como se eu não tivesse moral alguma. Ao invés de tratarem-me como a um cliente tratam-me como a um filho mais novo; minhas escolhas são negadas e retorno sempre insatisfeito com o corte de cabelo novo. Ai de mim se eu discordar. Malditos barbeiros. Agora só me resta esperar um mês até crescer tudo de novo. Enquanto isso não acontecer ficarei usando boné como forma de protesto. Se o Tom Morello pode, porque eu não? 


PS: Quanto ao título da crônica, sei que ele está rídiculo. Perdoem-me pela falta de criatividade. Não consegui pensar em um suficientemente bom e coerente para o assunto de hoje.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Garota E O Garoto

O caso de hoje aconteceu dentro de um ônibus, transporte coletivo que uso para ir até à faculdade. Como ele estava parcialmente lotado ficou difícil escolher um bom lugar para sentar. Acabei me sentando na frente. Minha preferência habitual sempre é a dos bancos que só tem lugar para um; chame-me de preconceituoso se quiser, mas pelo menos dessa maneira não tenho que me sentar ao lado dos figurões que ficam ouvindo funk alto no celular, dos cracudos descontrolados, dos obesos que ficam me comprimindo contra eles e de outras figuras características que o acaso me faz o favor de que venham sempre se sentar do meu lado. Por outro lado as boazudas que sem dúvida prefiro como companhia, quando sentam do meu lado no ônibus se levantam na primeira oportunidade para outro lugar bem longe de mim e olha que eu até me comporto direitinho, diferente de certos tarados que praticamente comem as mulheres com os olhos. Para evitar incômodos e constrangimentos que diminuem ainda mais a minha autoestima, prefiro sentar-me sozinho.
Continuando a história, lá estava eu sentado na frente em um desses bancos duplos. Sentei-me no lado do banco que não era o da janela, o que me tornou um alvo fácil para eventuais esbarrões das pessoas que passavam rispidamente pela roleta. Foi aí que entrou uma garota no ônibus.
Como todos os bancos estavam ocupados ela permaneceu de pé. O que estranhei foi o fato de que ela resolveu ficar parada logo do meu lado, próximo à roleta, atrapalhando a passagem dos outros e me comprimindo com a enorme bolsa vermelha a cada vez que um passageiro entrava. Geralmente as pessoas costumam ir para o fundo ou para o meio do ônibus e não ficar paradas do lado da roleta estorvando a passagem dos outros.
Não olhei direito para a cara dela porque não costumo ficar encarando desconhecidos no meio da rua. Olhando de relance deu para reparar que ela tinha cabelos pretos, trajava o uniforme da rede pública de ensino e carregava uma enorme bolsa vermelha como eu disse anteriormente.
Não vou dizer mentiras para pagar de bom moço. Dentro de um ônibus não costumo ceder meu lugar (sou um desses sem-vergonha que fingem que estão dormindo), não seguro bolsa dos outros, não faço contribuições para ONGs ou centros de recuperação (até mesmo porque nem tenho o que doar). Não me orgulho disso, mas é assim que geralmente me comporto. Como dizia em uma tirinha do André Dahmer, “não abro mão do meu egoísmo”. Por isso, mesmo com a bolsa dela me incomodando bastante, aguentei calado o sofrimento esperando pacientemente ela descer do ônibus ou migrar para outro lugar.
Alguns pontos depois subiu um garoto no ônibus. Ele ficou por um tempo parado na porta dianteira do ônibus, ao lado do motorista. Somente depois ele resolveu passar pela roleta. Foi aí que ele disse um tímido “oi” para a garota de nossa história. Pensei logo que ele era um desses garotões querendo dar em cima de garotas inocentes com cantadas baratas, puxando conversa sem sequer conhecê-las. Só que pela resposta dela deu para perceber que eles já se conheciam. Involuntariamente acabei ouvindo os dois conversando. Não sou fofoqueiro, mas como eles resolveram falar do meu lado sua conversa acabou tornando-se parte do domínio público e objeto de inspiração para uma crônica. Algo que eles certamente nem imaginavam que aconteceria.


A conversa foi até breve e sobre assuntos banais da vida escolar. Não sou nenhum Sherlock Holmes, mas deu para perceber que ambos eram estudantes provavelmente da mesma escola. Ele mais veterano que ela e ela logo abaixo, em alguma série inferior. Meu palpite era de que ele estava no 2° ano e ela na 9ª série, que nos meus tempos de estudante era conhecida como 8ª série. Isso porque em um momento o garoto falou sobre log e completou dizendo que a garota algum dia ainda aprenderia o que é sofrer. Ouvindo isso eu não sabia direito se me sentia com saudades ou aliviado de não ter que estudar mais esse tipo de coisa.


Ela conversa tranqüilamente ao contrário dele, cujo nervosismo se observava nas repetitivas interjeições. Em um dado momento o garoto perguntou o que a garota fazia depois da aula e ela respondeu que iria para um curso (de quê eu não sei) e depois para a aula de música. A cada resposta dela, o garoto respondia com um “Caramba!”. Lembrei-me até de um certo alguém que quando a sós conversa com alguma garota descomprometida, a qual possui um tipo de interesse além da amizade, fica falando ”Nossa!” o tempo todo.
O que me chamou a atenção é que deu até mesmo para eu, que não sou nenhum estudioso do comportamento humano, perceber que o cara estava se esforçando para puxar algum assunto com ela, ou melhor dizendo, deu para perceber que ele estava afim dela. Não foi algo muito explícito de perceber, mas deu para notar que ali tinha algo. Às vezes rolava um silêncio constrangedor e era sempre ele que retomava a conversa. Por tal razão nem sei afirmar se ela estava mesmo interessada em conversar com ele ou só não queria passar a imagem de uma pessoa grossa, demonstrando ser simpática respondendo à outra. Eu nunca soube diferenciar bem a simpatia do interesse.
A moral da história é que pude perceber que mesmo o garoto, personagem anônimo da minha crônica, sendo um jovem que frequenta a academia (ao contrário do gordo e velho blogueiro que aqui escreve), não consegue ser muito diferente de mim quando o assunto é mulher. O lamentável disso tudo é que eu sou mais velho e devia parar de agir como um adolescente inseguro em certas ocasiões, faça-se entender: situações de conquista amorosa. Talvez eu nunca mude. Sei que há quem ache a timidez algo charmoso, mas tenho que parar com certas manias. Fazer-me de vítima em relação ao amor é uma delas e está na minha lista de “facetas do meu comportamento bizarro que pretendo mudar futuramente”. Travar, se enrolar todo e não dizer como se sente não são coisas que acontecem só comigo.


O que me deixou ainda mais pensativo foi ter percebido que perdi algumas coisas legais na juventude que certamente nunca mais vou poder recuperar. Tento hoje em dia, mas não é a mesma coisa: as pessoas de 20 anos de idade já estão muito complexas, vividas e desgastadas. A possibilidade de ter uma relação marcada pela inocência fica a cada dia mais difícil. O interesse mútuo predomina, mas não é o interesse pelo alguém e sim pelo o que esse alguém tem a oferecer e que possa te beneficiar. Parece até a Idade Média: unem-se para se fortalecer e obter vantagens próprias e não pelo amor. Os homens vangloriam-se de suas namoradas gostosas e as garotas da maneira que os namorados ganham a vida, só para citar um exemplo. O jeito é deixar as idealizações românticas de lado e jogar esse jogo que todo mundo joga. Ou então ficar sozinho na frente do PC escrevendo sobre um garoto, que diferente de você, ousou ter iniciativa.

sábado, 20 de agosto de 2011

O Canto Do Sabiá

Em uma extensa tarde de ócio que só essa vida de desempregado e desacreditado me permite ter resolvi relaxar ouvindo músicas no PC. Coloquei o Windows Media Player no modo de reprodução aleatória a fim de obter surpresas agradáveis dentro das mais de duas mil e quinhentas músicas que possuo armazenadas na memória de meu computador. Ou não. Afinal todos nós possuímos um conhecimento considerável daquilo que nos pertence há um longo tempo e essa verdade é válida até mesmo para algo tão imaterial quanto arquivos de mp3. Desse modo o inesperado não deveria se manifestar diante dos meus olhos, ou melhor, diante dos meus ouvidos. Só que acabei me surpreendendo com o que ouvi dessa vez.
Começou a tocar Sabiá do MPB4. Música velha. Na verdade ela é do Chico Buarque, mas a versão que tenho em mp3 é executada pelo MPB4.


O que há de surpreendente nisso? Há o fato dela ter sido executada. Mais de oitenta por cento das músicas que possuo em arquivos digitais não são cantadas por artistas nacionais e justamente por esse menor número de representantes, menor a probabilidade de uma música cantada em português ser executada. Considerando tal desvantagem, a minoria se saiu muito bem conseguindo manifestar-se e garantir o seu espaço em meio a hegemonia. Pelo menos no meu computador isso foi possível. Ainda assim há outro motivo. O real motivo que me serviu de inspiração para escrever hoje.
Sabiá me fez voltar no tempo e lembrar do passado, especificamente do ano de 2009. Recordar me fez ver que a minha situação de vida pode até ter mudado um pouco, mas mesmo assim ainda existem certas semelhanças. Nas tardes daquele ano, por exemplo, eu também ficava estacionado dentro de casa, não de vagabundagem como hoje em dia, mas estudando para o vestibular. À tarde, eu parava de estudar para ficar assistindo ao Vale A Pena Ver De Novo, bebendo café e comendo biscoito Cream Cracker com goiabada (coisas de pobre). A novela reprisada na época era Senhora do Destino. Aquela mesmo. Com a Nazaré, a vilã que além de roubar bebê em hospital, matava as pessoas empurrando-as da escada de sua sala de estar. Nem sou um assíduo telespectador de novelas, mas admito que assistia à essa, tanto na primeira exibição quanto na reprise.


Já ia me esquecendo da música. Sabiá era a música tema de Sebastião, um personagem secundário que trabalhava como motorista e que constantemente ficava dentro do carro que ganhou de herança da sua antiga patroa, por quem tinha uma espécie de amor platônico. Dentro do carro ficava relembrando momentos de seu passado de forma saudosa e melancólica. Nessas cenas sempre tocavam essa música. ”Vou voltar. Sei que ainda vou voltar.” De tanto ouvi-la durante aquele ano resolvi baixá-la e tinha me esquecido dela até há alguns dias atrás.
Naquela época quando a ouvia lembrava do meu passado recém encerrado de estudante. Uniformizado pelo menos. As boas recordações voltavam a minha cabeça e enfim percebi que na verdade sentia falta de tudo aquilo, até mesmo das coisas ruins que hoje acho cômicas. Agora no presente, quando a ouvi lembrei-me desse exato ano de 2009, um ano de transição, o menos favorito da minha até agora curta trajetória de vida. Não quero me alongar muito falando dele, mas é justo dar pelo menos uma explicação para o meu desgosto por esse ano. Nunca fui um tarado por atenção, mas ficar invisível para mais de 100 almas durante o período de um ano inteiro foi uma experiência bastante ruim, eu diria até que deprimente e disso eu não sinto falta alguma. 2009 já foi tarde e para mim é um tabu, uma fase da minha vida a ser renegado. Quem sabe algum dia eu reconsidere e mude de opinião.


A lição de toda essa história é que a memória é alterada conforme as situações as quais vivemos e isso acontece constantemente. A música me fez ver como a nossa memória pode ser maleável; a mesma música me fez lembrar ora de momentos de alegria, ora de um momento de tristeza, sentimentos bastante distintos que ocorreram em momentos distintos. Possuímos afeição por objetos, lugares, eventos e situações. Tais elementos podem se associar a lembranças, como a música Sabiá e com o passar do tempo o mesmo objeto pode evocar múltiplas lembranças, como se funcionasse como um recipiente de memórias. A música tem a facilidade de evocar facilmente uma lembrança do nosso passado; acaba se tornando tema de um momento, de uma situação da vida. Uma música hoje tem um significado para a gente; amanhã a mesma música pode ter outro significado.
Assim é a vida. Novidades surgem a cada dia que vivemos e mais elementos são acrescentados a nossa história de vida. Fica um desejo de permanência das lembranças boas e de esquecimento das lembranças ruins, mas nem sempre isso é possível. Na nossa memória há espaço para ambas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Influência De Um Ídolo

Essa história do encontro do Eduardo Sterblitch, vulgo César Polvilho, com o Jim Carrey foi muito bacana. Estou comentando o assunto com um certo atraso e tenho certeza que meus comentários ao longo da crônica parecerão redundantes, mas acho necessário registrar esse caso aqui no blog. Deu para notar que o cara é fã de verdade do ator que interpretou o Máskara, o Ace Ventura e outros tantos personagens icônicos do cinema e isso desde criancinha. É inimaginável crer que toda essa história de um integrante do programa cultuar um ídolo foi criada só para o programa ter uma matéria interessante para variar. O Pânico Na TV já caiu no meu conceito há muito tempo pela baixaria, pelos conflitos internos e pelas piadas de gosto duvidoso, mas dessa vez há de se tirar o chapéu para eles por tentarem fazer algo tão extraordinário como a realização de um sonho. A emoção do Eduardo Sterblitch foi real e as suas lágrimas não deixam mentir. Parabéns à produção do programa, ao pessoal do Twitter pela colaboração e ao Jim Carrey pela sua humildade em ser tão receptivo.
Acho que todo mundo se imaginou no lugar do Edu. Não necessariamente pelo fato de estar frente a frente com o Jim Carrey. Refiro-me ao fato de conhecer um ídolo, seja ele qualquer. Ídolos são pessoas de carne e osso como nós e dá até para considerar o desconforto que eles sentem quando vêem uma pessoa que eles sequer conhecem chorando de emoção. Quem mandou eles serem tão legais? O constrangimento é um pequeno preço a se pagar pela fama.


É interessante como um ídolo por ser famoso pode influenciar outras pessoas que ele sequer conhece. Uma celebridade sempre se torna modelo de sucesso para outras pessoas. Ninguém começa a fazer as coisas do nada. É assim na música, no cinema, na literatura, nas artes plásticas e em tantos outros ramos, sejam eles artísticos ou não. Você admira o trabalho de uma pessoa, absorve algumas características dela e daí começa a trilhar o seu próprio caminho. Ou seja, um ídolo, uma pessoa tão distante de nós pode ser decisiva em nossas vidas, seja influenciando nossas escolhas, nosso estilo de vida ou a nossa carreira.
Lógico que tenho meus ídolos. Em diferentes áreas aliás. Sou uma espécie de Seu Madruga: já tentei fazer um monte de coisa e não dei certo em nenhuma. Já mencionei várias vezes aqui no blog que fazia histórias em quadrinhos. Não comecei a escrevê-las do nada. Fui influenciado pelos mangakas japoneses. Tudo bem que as minhas histórias em nada se relacionavam com mangás, mas a idéia de usar a mídia quadrinho para contar uma história certamente veio da minha leitura habitual de mangás.
Depois por um longo período, fiquei com a idéia na cabeça de que queria ser comediante quando adulto, igual ao Eduardo Sterblitch, que desde criança queria fazer isso como o seu ídolo Jim Carrey. No meu caso a influência foi o  Adam Sandler. Adorava seus filmes, me identificava com seus personagens e achava legal o seu jeito de incluir os seus amigos em seus filmes (Rob Schneider que o diga).


Por isso ganhar dinheiro fazendo os outros rirem parecia uma perspectiva interessante para o futuro e além disso, notei que sentia um certo prazer em provocar risos nos outros a qualquer preço, inclusive valendo-me de piadas autodepreciativas. Como todo comediante é ator resolvi ir estudar um pouco de teatro e infelizmente pude perceber o quanto inexpressivo eu era. Na voz e no corpo. Eu não serviria para atuar nem mesmo no cinema mudo.


Não sei se sou crítico demais comigo mesmo, mas não me achava bom o bastante e não me sentia fazendo progresso em ambos os casos, tanto nos quadrinhos quanto na comédia. Alguns amigos até me elogiavam, mas em relação a elogios eu sempre desconfio da opinião de amizades. No bom sentido é claro. Bons amigos costumam dizer coisas positivas para animar você, a fim de estimular as suas habilidades. O problema é que não dá para usar a opinião de amizades como parâmetro para saber se você de fato está fazendo um trabalho interessante. Como a minha insegurança transparece no dia-a-dia, consigo até imaginar a galera contendo as suas criticas para não me deixar mal. Com a suposta falta de progresso e com a indecisão na cabeça acabei desistindo.
Aí me ocorreu essa solução de escrever, ou melhor, ser (ou tentar ser) engraçado escrevendo. Escrevendo consigo contar histórias como fazia nos quadrinhos e fazer gracinhas como em uma comédia. Isso sem ter que me dar o trabalho de aparecer. Faço com prazer e me sinto confortável fazendo-o. A mídia pode até ter mudado, mas as influências continuam as mesmas. Meus ídolos ainda são os mesmos e é isso que importa. Parabéns a você Eduardo Sterblitch pelo sucesso, por não desistir e por ter conseguido conhecer seu ídolo, sua influência, seu mentor, seu mestre.


PS: Um dos meus sonhos é conhecer o Adam Sandler. Se alguém puder me ajudar, agradeço.