segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Religião

Tive criação católica. Fui batizado, catequizado, ia às missas aos domingos. No entanto, conforme crescia e conhecia melhor o mundo e a mim mesmo, comecei a fazer certos questionamentos. Logo, aos poucos, fui perdendo minha religião, até chegar ao ponto em que minha confiança nas instituições religiosas caiu por terra, assim como a minha crença nas divindades em geral. Agora, de cristão, só me resta o nome de batismo. 



Nunca gostei de ir à igreja. Francamente, sempre achei esse hábito um tanto quanto enfadonho. Na maioria das vezes em que ia, minha mente voava e eu ficava pensando em outras mil coisas, menos na missa. Quando era criança sequer compreendia direito o que era dito pelo padre. Comecei a prestar mais atenção no que era falado quando fiquei mais velho. Só então me dei conta de que ir para missa significava ir a um lugar onde se ouvia sobre moralidade e, principalmente, sobre todas as diferentes maneiras de ir para o inferno.



Ok, exagerei dessa vez. Não se falava só sobre isso, contudo era o que mais me impressionava. Eu chegava a arregalar os olhos de medo. Isso me fazia sentir mal, já que eu praticava inúmeros pecados que certamente após a morte, me levariam rumo a um castigo nas dependências do sujeito vermelho com chifres. O fato é que eu não gostava de me sentir acusado, como um pecador, o tempo todo, só por ter cometido os sete pecados capitais e metade dos dez mandamentos.



Por que ir, então? Quando era criança ia por orientação da família. Fazia o papel do bom menino que ia à igreja, pois não queria criar problemas, bancando o revoltado. No entanto, com o passar dos anos, continuei indo, mesmo sem motivo aparente. Tal qual a personagem Bethany do filme Dogma, eu ia mais pelo hábito do que pela fé. Quando me dei conta disso, simplesmente deixei de ir. 



Já que citei o filme do Kevin Smith, acho que é uma boa hora para falar sobre dogma. Dogma é uma crença indiscutível estabelecida por uma religião. Isso é um grande problema, já que cada religião acredita que somente ela é legítima e detentora da verdade absoluta. Por causa de dogmas, o comportamento de alguns religiosos beira a uma teimosia infantil, imune a argumentos. Tal modo de pensar trunca diálogos e promove confrontos entre as religiões. O dogma é a base do fanatismo religioso, que pode levar a conflitos, intolerância, guerras, e claro, mortes. No passado da nossa humanidade, era recorrente que pessoas que desrespeitassem um dogma religioso fossem perseguidas, torturadas, queimadas e enforcadas.
Ainda hoje, pessoas são marginalizadas por questionarem dogmas que norteiam suas religiões. Geralmente, elas são expulsas de seus grupos religiosos por divergirem de algum ponto de vista e daí taxadas como hereges ou blasfemadores. Talvez por isso hoje se proliferem múltiplas religiões mundo afora. Não estou defendendo a supremacia de nenhuma instituição específica, só acho estranho mudar uma religião conforme a conveniência, como se ela fosse personalizável. Que nem essa bobagem de católico não praticante, que só existe no Brasil. Ou você é ou não é. Eu, por exemplo, simplesmente resolvi não ser mais católico. O papa não mais me representa. Isso significa que posso fazer sexo com camisinha, obrigado. 
O dogmatismo religioso me incomoda, pois ele não pode ser questionado. Um dogma é absoluto para aqueles que nele acreditam. Isso dá grande poder aos líderes religiosos e legitimidade às suas ações, até mesmo as mais equivocadas. A história está ai para comprovar isto. A Igreja, por exemplo, apoiou a escravidão e foi omissa em tantas outras oportunidades. Nos tempos modernos, temos escândalos de corrupção e abuso de menores. 
Como deu para perceber as instituições religiosas não me inspiram muita confiança. Daí se origina metade do meu abalo espiritual e religioso. A outra metade da questão, a mais importante, é a relação entre indivíduo e divindade. Acredito que ela possa ocorrer sem a ajuda de intermediários, isto é, sem instituições religiosas. Penso que uma pessoa que crê em uma divindade, pode se comunicar diretamente, estabelecendo com ela um elo pessoal e íntimo.



Para mim, isso não seria possível. Eu não conseguiria ter uma relação de devoção sincera com uma divindade, pois duvidaria da sua existência. Até por esse motivo, não procurei outras religiões. Teria que ser algo real. Simplesmente não consigo crer em algo que não vejo, que não se comunica, que não se manifesta. Só mesmo um milagre ou uma situação apocalíptica como no filme É o Fim, para me fazer acreditar em algo. Sou daqueles que precisa ver para ver. Um homem sem fé, já que a fé é cega.



A questão ia além do desgosto pelos sermões moralistas. Podia inventar a desculpa que fosse, mas sabia que o real motivo de não querer ir à igreja era minha falta de fé. Fé é a firme opinião de que algo é verdade. Uma crença que dispensa qualquer tipo de prova, a qual se deposita absoluta lealdade e confiança. Ou seja, fé não é algo que se vê, é algo que se sente. Eu não sentia nada. Foi duro, mas enfim admiti a mim mesmo que não tinha fé plena e absoluta em coisa alguma.
Levar a discussão para o lado espiritual, também não conta. Essa história de que a fé está dentro de nós, em nossos corações, em nossas almas, não me atinge. O senso de justiça do Batman vive em mim, nem por isso me visto de morcego no Natal. Concordar com os valores de alguma coisa, não me faz acreditar que ela seja real. Por isso insisto que ver algo concreto, solidificado, me ajudaria a ter fé de verdade em algo. Por exemplo, se tivessem me dito que o sol era um deus, provavelmente eu acreditaria e teria uma religião até hoje. Afinal de contas o sol é grande, brilhante, visível e tem real utilidade, nos fornecendo luz e energia.



Perdoem-me pelas comparações infelizes. Não tenho a intenção de caçoar das crenças de ninguém, mas às vezes esqueço que com religião não se brinca. Não faço de propósito, porém de vez em quando uma piada escapa. Certa vez criei um mal estar com uma das pessoas mais abertas, liberais e doces que já conheci por causa disso. Despreocupadamente, perguntei se ela acreditava em alguma religião gótica neopagã louca. E era exatamente o caso... 
Errei, admito. Entretanto acho isso uma grande hipocrisia. As pessoas adoram ouvir piadas sobre a religião alheia, no entanto, surtam quando a piada diz respeito a religião delas. É como naquele ditado popular: pimenta nos olhos dos outros é refresco. Igual ao Isaac Hayes, que abandonou a dublagem do personagem Chef em South Park, pois os criadores do seriado fizeram um episódio que caçoava da religião dele, a cientologia. Antes disso, Hayes não se incomodava quando o programa fazia piadas sobre outras religiões.



Voltemos a questão da fé. Não se pode duvidar e ter fé ao mesmo tempo, logo me restou a dúvida. A ausência de fé pode levar a caminhos diferentes. Algumas pessoas tornam-se céticas e passam a acreditar somente na ciência, por exemplo. O cético usa o pensamento crítico e a ciência para checar a veracidade de diferentes fenômenos e assim, através de fatos e dados concretos, tenta comprovar a inexistência divina. 



Religião e ciência são velhas inimigas que se confrontam a muito tempo. Vários embates entre cientistas e religiosos ocorreram ao longo da história. Ainda hoje ocorrem desentendimentos. Na atualidade, a questão do aborto, o uso das células-troncos, a teoria criacionista, e tantos outros assuntos continuam a provocar discussões ácidas entre as duas partes. 
O ceticismo geralmente leva ao ateísmo. O ateu rejeita a existência de divindades e criaturas sobrenaturais, pois isso não se pode comprovar cientificamente. Neste caso, não há dúvidas e sim uma certeza. Um ateu convicto simplesmente não acredita que exista um ser superior e invisível.
Não me declaro ateu, porque noto uma certa pompa entre eles. Por mais irônico que pareça, o ateísmo é tão arrogante e presunçoso quanto qualquer religião. Costumo me referir ao ateísmo como a religião dos sem religiões. Por mim, tudo bem a pessoa não acreditar em nada, mas ela não precisa se prestar ao papel de taxar de idiotas todos os que seguem uma religião. 



É isso que me incomoda no ateísmo, assim como nas religiões em geral: não basta você ser, é preciso mostrar a todos. Entre ateus e religioso, não sei quem é mais irritante. Ambos acham que estão certos e tentam te convencer disso. Acredito que ninguém seja dono da verdade. Eu não tenho a certeza de nada. Restou-me o agnosticismo. Um agnóstico é aquele que diz que a existência de um deus não pode ser provada e nem negada, uma pessoa sem fé, que não argumenta contra nenhuma crença. Ou seja, me torno impotente toda vez que alguém me pergunta se acredito em algum deus, pois não consigo responder a essa questão com convicção. Simplesmente me recuso a dizer sim ou não. Eu não sei. Não sei mesmo.



A questão é que depois de toda essa análise, eu simplesmente resolvi parar de pensar nisso tudo. Resolvi eu mesmo tomar conta do meu destino e assumir a responsabilidade pelo rumo que a minha vida leva. Mesmo se existir vida após a morte, acredito que o que pode nos salvar não é nossa escolha religiosa, mas sim nossas atitudes, as pequenas escolhas que fazemos no dia-a-dia e que nos definem como pessoas. Dogmas e regras são desnecessários. Como disse o Sirius Black, todos nós temos luz e trevas dentro da gente. No fundo, sabemos se somos, em essência, pessoas boas ou ruins.



Não nego que a religião pode salvar vidas. Ela pode ser confortante para pessoas desesperadas, perdidas, desoladas, deprimidas, gente que sente um profundo vazio existencial dentro delas e que têm a necessidade de se sentirem acolhidas por algo maior. Mas isso se dá através de controle, de devoção, de submissão e de disciplina. Não é algo natural. É um comportamento mecânico, programado, que repreende desejos do corpo e da mente, o qual para mim não tem sentido. O ser humano deveria cair na real e perceber que o verdadeiro poder está nele mesmo. É preciso deixar as crendices de lado, arregaçar as mangas e botar as mãos na massa para fazer as coisas acontecerem. Independentemente de sua fé, um homem deve ser capaz de ser mestre de si mesmo.

domingo, 13 de outubro de 2013

Depressão

Depressão é um tema que tem me acompanhado por boa parte da minha vida. Embora eu não me considere depressivo, muitas vezes fui taxado como tal. Acredito que isso tenha ocorrido por causa da minha personalidade, digamos, peculiar. 
É difícil explicar para quem não me conhece, por isso acho mais fácil usar um personagem para nível de comparação. Sabe o Bisonho dos desenhos do Ursinho Pooh? Aquele depressivo burro cinzento, de voz entediada e monótona, meio pessimista, que nunca fica contente ou entusiasmado com nada? Imagine uma versão humana da criatura. Esse sou eu.


Apesar de reconhecer em mim mesmo todas essas características, não me considero depressivo. Para mim, depressão é algo sério, uma doença perigosa que pode arruinar a vida de uma pessoa, se ela se deixar levar. 
Veja bem, isso aqui não é um livro de autoajuda. Lamento por quem esperava por isso, mas vão vou dizer a ninguém para amar mais, aproveitar a vida, e todas essas outras bobagens tolas e óbvias que esses livros costumam explorar para serem vendidos. Meu objetivo é tentar definir o que é depressão.
Já que disse que não me considero depressivo preciso deixar claro quem o é. Uma pessoa depressiva, na minha opinião, é alguém que vivia uma vida normal, até que um dia, um incidente lhe fez sofrer um grave abalo emocional, deixando-a deprimida. Vários fatores podem desencadear uma depressão. O problema está na força que esses motivos ganham quando não são superados pela pessoa. Isso é muito perigoso, pois um caso de depressão grave pode levar ao suicídio.


É difícil sair da zona da depressão. A pessoa cai nela como em um abismo e, às vezes, jamais torna a ver à superfície. O que caracteriza a depressão é a perda de interesse. Desistir da vida. Tudo torna-se sem graça e sem sentido. O depressivo é abatido por uma dor que ninguém compreende, não se sentindo estimulado a fazer mais nada; torna-se um apático. O que impera é um sentimento de entrega à uma angústia interminável. Na depressão, o pior inimigo é você mesmo. 


Entretanto é preciso não confundir depressão com tristeza. A tristeza tem motivos, a depressão não. É normal se sentir triste de vez em quando. A vida nem sempre segue o curso que desejamos. Coisas ruins acontecem o tempo todo. Desilusões, tragédias, descontentamentos, tudo isso leva à tristeza. Nem todos se recuperam. É importante não se deixar levar pela tristeza, pois quando prolongada, pode vir a se tornar uma depressão.


A vida em sociedade também estimula a depressão. O convívio com outras pessoas influencia nosso humor, nossa personalidade e nossos desejos. Nos importamos com o que pensam a respeito da gente. Fazemos comparações para saber quem é o melhor. Nesse contexto, ser feliz, ou aparentar ser, é fundamental.


Vivemos em um mundo muito louco. A vida é muita coisa, menos simples. Ela está cada vez mais complexa. Recebemos múltiplos estímulos e opções o tempo todo. Somos pressionados a tomar decisões as quais não estamos preparados. Tem gente que não consegue o que quer e acha que é um fracassado. Daí surta, se deprime. Infelizmente, na nossa sociedade, tem gente que acha que perder é ser menor na vida. Tudo isso porque a felicidade se tornou um jogo, o qual todo mundo deseja vencer.


Todo mundo fala que só quer ser feliz. Para essas pessoas proponho que olhem ao seu redor. Todo mundo quer isso. Que ser humano quer ser infeliz? É óbvio que nem todos alcançarão a felicidade. Essa busca pode levar a vida toda e sequer há certeza de que ela será conquistada. Por mais irônico que seja, o anseio pela felicidade pode levar a depressão. 
É preciso ser realista e encarar que certos desejos pessoais podem não vir a se realizar. Existem coisas maiores do que a gente, independentes de nossas vontades. É melhor cortar as asinhas logo e manter os pés no chão. Há competição e nem todo mundo vai vencer. Vá, tente, mas esteja preparado para o pior. Tudo bem ficar triste se não conseguir. Mas é bom ter a noção de que, talvez, você nunca se torne o herói da classe trabalhadora que pensou que seria um dia. 


Por essas razões me pareço com o Bisonho. Espero sempre o pior, logo nunca fico decepcionado. Como estratégia de defesa, não me entusiasmo por pouca coisa. O que alguns chamam de tristeza ou depressão, eu chamo de estado de normalidade.


Não sou feliz, mas até que vivo bem comigo mesmo. Rio quando acho graça de algo, esboço o mínimo de reação quando me sinto irritado. Faço as minhas coisas. Isso confunde as pessoas. Algumas pensam que eu não quero nada da vida, que sou um niilista. Contudo, vivo atento ao que acontece ao meu redor. Sou apenas um falso desinteressado. Acho que deve ser meio incômodo conviver com alguém que quase nunca se mostra animado. Lamento por isso, mas é como naquela frase do meme do Sad Keanu: Você precisa ser feliz para viver, eu não. 


É muito bonito dizer que estou satisfeito do jeito que sou, mas tomar para si uma personalidade dessas traz consequências. Por mais que você explique, os outros vão continuar pensando que você é depressivo. Isso, é claro, afasta algumas pessoas. Ninguém quer ficar perto de alguém triste. Alguns até tentam te animar, mas quando descobrem que sua a personalidade é igual à da Funérea, caem fora.


Recentemente, retomei contato com uma amiga com quem a tempos não falava. Perguntei na cara dura porque ela havia se afastado de mim e me surpreendi com a sinceridade da resposta dela: “Você estava sempre para baixo. Eu tentava te animar e você nada. Decidi então me afastar de você”. Nem depois de ter ouvido essa me considerei depressivo. É mais fácil mudar de atitude do que ir em farmácia atrás de Prozac. Ela até que tinha razão, pois na época em questão eu estava insuportável. Fiz dela uma pobre vítima, a qual contava de maneira pessimista as tragédias da minha vida, como se ela fosse uma novela mexicana narrada pelo Hardy Har Har. Bota drama nisso. 


Curiosamente, a depressão também é utilizada como forma de socialização. Isso mesmo: reunir pessoas. Quer exemplos? Algumas religiões tentam cooptar depressivos, dizendo que a fé pode preencher o vazio de suas almas (e o bolso de algumas pessoas também). O depressivo torna-se então um membro da religião, pensando que a fé irá curar a sua doença. Certas tribos urbanas também são estereotipadas como reduto de depressivos. Existem pessoas que abraçam totalmente um modo de vida melancólico e pessimista, que gostam de ser vistos dessa forma. Os góticos são um bom exemplo disso. 
Em um dos episódios de South Park, o Stan (o menino de boina azul) se separa da namorada e fica todo doído por causa disso. Kyle (o judeuzinho eternamente trollado pelo Cartman), seu melhor amigo, cansado e irritado de ver Stan deprimido, lhe desafia a andar com os góticos da escola. Stan topa. O garoto começa a andar com a galerinha que se veste de preto, gente obcecada com a não-conformidade. 


Achei engraçado, pois me aconteceu algo semelhante. Em uma época de seguidos infortúnios em minha vida, busquei refúgio na música pós-punk. Comecei a ouvir The Cure, Joy Division, e outras bandas cultuadas pelos góticos. Continuo gostando dessas bandas, mas minha vida musical, hoje, não é só constituída por playlists de música deprê. A vida não é só isso.


Enfim, apesar de nunca ter sido a pessoa mais eufórica que alguém já possa ter conhecido, acredito que viver em depressão não seja o caminho. Todo mundo tem problemas. Problemas diferentes, os quais alguns eu francamente não faria a menor ideia de como reagiria, caso acontecessem comigo. Não devia ser surpresa para ninguém que o mundo, às vezes, pode ser muito injusto. Sequer vale a pena ficar comparando quem sofre mais. Nossos problemas são importantes para nós mesmos, não importa o quanto pareçam insignificantes para os outros. De qualquer modo, temos que lidar com eles. Não dá para sentir pena de si mesmo. Não dá para desistir de si mesmo.

PS: Criar uma página no Facebook chamada “Crônicas Faraônicas da Depressão” seria pleonasmo.

domingo, 6 de outubro de 2013

Suicídio

Não se preocupe. Esta não é uma carta de suicídio. Não tenho a menor intenção de fazer isso, apesar das constantes demonstrações de desamor com a minha própria pessoa. Não pretendo passar uma corda em volta do meu pescoço. 


Além do mais, jamais escreveria um bilhete desses para ser lido por desconhecidos na internet. Se o fizesse, escreveria notas a mão, as quais destinaria à pessoas especificas. A mensagem seria curta e breve, seguindo meu padrão minimalista. Nela só constaria os dizeres “Você é culpado”. “Lide com isto”, responderia a consciência.


Minha intenção aqui é só falar sobre o suicídio, um tabu que poucos se propõem a discutir. Geralmente, quando se fala em suicídio, a discussão é simplificada ao máximo. A culpa é toda colocada na pessoa que se mata, um maluco, um depressivo, um solitário, um miserável. Só que a questão vai muito além disso.
Antes de prosseguir, preciso fazer uma ressalva. Estou falando da versão clássica do suicídio, aquela em que a pessoa decidi pôr fim a sua própria vida, sem um motivo aparente. Logo, não estou me referindo a morte por honra, auto sacrifício ou protesto. O suicídio tratado aqui é o, digamos, “menos nobre” de todos.


Em relação ao suicídio, um ponto a ser pensado é o motivo. Nenhum outro ser vivo faz isso. O suicídio é uma prerrogativa humana. Porque então um homem se suicida? Fiz essa pergunta a mim mesmo, quando li uma entrevista com um dos amigos do Champignon, baixista da banda Charlie Brown Jr., que cometeu suicídio. O entrevistado disse algo na linha de “Não dá para gente entender o que leva uma pessoa a deixar de se importar com a própria vida, a ponto de tirá-la”.
As causas mais comuns para o suicídio são transtornos mentais, depressão, alcoolismo, vício em drogas, dificuldades financeiras, problemas emocionais. Coisas do homem moderno. Contudo, além de existirem outras causas, mesmo dentro das citadas há variações e até combinações entre elas. É difícil taxar, etiquetar um suicida. Só o próprio sabe porque se matou.
No filme Control, por exemplo, que fala sobre a vida de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, percebi que vários motivos poderiam tê-lo levado ao suicídio. É impossível saber o que exatamente leva um cara de 23 anos, com uma carreira toda pela frente, a se matar. Mas os motivos estavam lá: os ataques epiléticos, a depressão, o fim do casamento com a esposa, ser pai, as pressões de estar em uma banda. 


Coincidentemente, as duas pessoas que citei seguem o triste clichê do roqueiro suicida. No rock não faltam exemplos de casos de suicídio. Trata-se de um universo peculiar, com ideais de contracultura, indivíduos desajustados e idolatria a posicionamento questionáveis. Kurt Cobain, do Nirvana, escreveu uma canção chamada I Hate Myself And I Want To Die (Eu me odeio e quero morrer). Layne Staley, em um verso de um dos hits do Alice in Chains, dizia “If I can’t be my own, I’d feel better dead” (Se não posso ser eu mesmo, eu me sentiria melhor morto). Ambos se suicidaram. Os sinais estão sempre ali, evidentes, mas preferimos aplaudir o espetáculo da tragédia humana.


Contudo, um suicídio traz implicações em outras pessoas. É um ato solitário, mas não é. Afinal, nenhum homem é uma ilha. Até o mais recluso dos suicidas possui uma rede de relações, que é afetada após a tragédia. O simples fato de ter conhecido o suicida já é capaz de abalar o emocional de um ser humano com o mínimo de sensibilidade e empatia. Pior ainda, quando acontece com algum familiar.
No caso do Champignon, vi muitas pessoas nas redes sociais chamando-o de covarde, por ter se matado deixando viúva sua mulher grávida. Vou parecer mal, mas isso precisa ser falado. A vida é um bem pessoal e intransferível. É um pensamento simplista, o qual as pessoas preferem esquecer. Sei que o ser humano é um ser social. Sei que vivemos em uma cultura de casamentos e relacionamentos sérios. Porém, no fundo, estamos todos sozinhos. Não é agradável, mas é bom ficar ciente disso.


Boa parte do repúdio que a sociedade tem a respeito do suicídio está relacionado à religião. De acordo com o cristianismo, suicidar-se é comprar uma passagem para o inferno, vide Constantine. Para os católicos, trata-se de uma ofensa grave contra a santidade da vida.


Não estou defendendo quem comete suicídio. Só proponho uma melhor compreensão, observando o tema através de outros pontos de vista e variáveis. O suicídio é a décima maior causa de mortes no mundo, mas ninguém faz campanha sobre isso. A mídia não toca no assunto, com medo de popularizar um hábito que pode tornar-se tentador para pessoas sem esperança na vida. Mas sabemos muito bem que isso acontece. Vários estudantes do Rio de Janeiro sabem que a Uerj é o point de suicídio mais badalado da cidade. Agora o porquê, não é discutido.
Uma vez, assisti a história de um velho escritor que vivia isolado em um sítio e decidiu se suicidar. Longe de tudo e todos, o homem dedicava seus dias de velhice a ler livros. Foi acometido por uma doença. Perdeu a visão. Preferiu se matar a viver daquele jeito. Para que julgá-lo ou falar sobre vontade divina? Essa foi a escolha do homem.
Cada um faz o que quiser com a própria vida. Não temos direito de julgar aqueles que escolhem um atalho para o fim, chamado suicídio. Podemos lamentar, compadecer, mas condenar, não. Cada um de nós lida com o mundo de forma diferente. É tolice generalizar dizendo que todos tem que ser fortes, superar as dificuldades e continuar vivendo. Tem gente que simplesmente não quer. Que não aguenta mais. Isso é uma escolha pessoal. Lamentável, mas individual.
O comportamento suicida relaciona-se com a incapacidade do indivíduo de encontrar soluções para seus problemas. A saída encontrada é a morte, uma viagem sem volta. Dor para os que ficam. Alívio para os que vão. A vida é uma só, mas tem gente disposta a debandá-la. Para quem tem uma vida maravilinda, isso pode soar absurdo. Porém, para outras pessoas, a vida é encarada como um sofrimento contínuo. Essas pessoas querem se libertas da vida. O corpo é a última prisão. Faça as contas.

PS: Reitero: não sou suicida. Pretendo viver até 2050. Isso se não houver acidentes de percurso, é claro.

sábado, 28 de setembro de 2013

Dia 19

Missão cumprida. Consegui ir ao Rock in Rio deste ano.


Não pude ir na edição de 2011 porque tive um problema financeiro. Quando consegui dinheiro para comprar um ingresso, eles já haviam se esgotado. Na ocasião, pretendia ir ao festival para ver o show do System of a Down. Acabei assistindo pela televisão, mas não achei o show lá essas coisas. O Serj estava cantando meio esquisito. De todo modo, seria legal ter ido ver esses caras ao vivo.
Este ano quase cometi o mesmo erro. Mais uma vez os ingressos se esgotaram antes de eu ter adquirido um. Resolvi deixar meus princípios (e bom senso) de lado e comprei um ingresso de um desconhecido na internet. O valor cobrado estava bem acima do preço original. Mas claro que não fiz isso à toa. Tinha um motivo. Quis ir ao Rock in Rio deste ano por uma razão: Alice in Chains.


Alice in Chains é uma das minhas banda favoritas. Admito que virei fã da banda bem depois do seu auge nos anos 90. Me fascinei com o jeito que eles conseguem extrair beleza da tristeza em suas músicas. Sinto paz, melancolia e identificação a cada vez que os escuto. Sempre que leio comentários sobre o significado das músicas do Alice in Chains, vejo que as pessoas caem na argumentação fácil de que as letras são sobre o vício em heroína do finado e saudoso vocalista, Layne Staley. É verdade que em algumas músicas isso é bem claro, porém nem todas se relacionam com esse tema indigesto. Sem contar que é sempre bom lembrar que o significado da letra de uma música varia de pessoa para pessoa. Não importa quem escreveu: uma música pode ter um significado diferente para cada pessoa que a escuta.


Quando soube que eles iam se apresentar no Rock in Rio deste ano, coloquei em minha cabeça que iria ao festival, só para ver de perto Jerry Cantrell e sua turma. O que visse além disso seria lucro. Sim, eu sei que o headliner do dia era o Metallica, mas fui para ver mesmo o Alice in Chains. Os caras não vinham ao Rio tocar desde 1993. Sabe-se lá quando eu teria outra oportunidade de ver um show deles por aqui.
No grande dia, preparei-me para ir ao meu primeiro Rock in Rio. Para o dia do metal, me uniformizei devidamente com a indumentária preta: tênis, calça, munhequeira e uma camisa com o logo do Alice in Chains. Fui sozinho, com a fé e a coragem de sempre. No ônibus tive um pequeno susto que me causou uma certa apreensão. Havia um cara trajando uma camisa com uma suástica e acontece que sou negro. Fora a visão de um nazista dentro do ônibus, a viagem foi tranquila.
Desci no ponto final do ônibus e a primeira coisa que fiz foi comprar uma capa de chuva, já que o tempo estava meio indeciso. Os espertalhões da meteorologia disseram que iria chover e eu, tolo, acreditei. Teve ainda o fato de que pensei na possibilidade de se repetir o mesmo que aconteceu no show do Alice in Chains, em 2011, no SWU: tocar Rain When I Die, em plena chuva. Se acontecesse o mesmo no Rock in Rio seria épico.
No caminho entre o terminal de ônibus e a Cidade do Rock, alguns botecos tocavam músicas do Alice in Chains e do Metallica. Fui entrando no clima. Cheguei no começo do show do Ghost. Não conhecia a banda. A única informação que tinha ouvido é que eles tocavam rock satânico, o que não era a minha praia e, pelo visto, também não era da maioria, que tinha ido para ver o Metallica. Francamente, vi umas três pessoas cantando as músicas do Ghost. Foi uma má escolha dos organizadores trazer uma banda dessas para um país tão católico quanto o nosso. Posso ter abandonado minha antiga religião, mas não vou ficar tirando sarro dela, aplaudindo um cantor fantasiado de papa dos infernos.


Desinteressado no show que acontecia no Palco Mundo, fui passear. Fiquei rondando para ver se achava algo interessante (entenda-se: mulheres), mas não encontrei nada de meu interesse. Não tinha importância, já que havia ido ao festival pela música. Se tivesse interessado em outras coisas, teria ido em um dia de música melosa, falsa e sentimental que no presente momento de minha vida, não sinto a menor vontade de ouvir. 
Percebi que várias pessoas circulavam pela Cidade do Rock com a camiseta clássica dos Ramones. Em números, perdiam para os com a camisa do Metallica e ganhavam dos com a camisa do Alice in Chains. Impossível diferenciar fãs de modistas. Bacana foi ver também as paródias. Tinha um cara com uma camisa dos Hobbits que era uma sátira das camisa dos Ramones. Nela, os nomes de Frodo, Sam, Merry e Pippin substituíam os de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy. Bem bolado.


Chegada a hora do show do Alice in Chains, me aproximei o máximo que pude do palco. Consegui assistir o show perto da cabine do Multishow. Pirei quando eles abriram o show com Them Bones. Nutshell, Down In A Hole, Rooster, Man In The Box e outros clássicos foram tocados ao longo da apresentação. Showzaço. Lógico que minha análise é parcial, porque sou fã. Mas o show foi excelente tecnicamente. Jerry Cantrell comandou a banda com sua guitarra e o vocalista William Duvall, apesar de não ser o Layne Staley, segurou a onda. Afinal, não podemos nos prender ao passado. Bola para a frente, moçada hater chata.


Contudo percebi uns pontos negativos. Os músicos pouco interagiam com o público, só se prenderam a tocar (bem) seus instrumentos. Isso é bom, mas é chato ir a um show de rock previsível. Houve pouca presença de palco por parte dos integrantes. O único que se esforçava para ser simpático era o Duvall, que se arriscava dizendo umas coisas em português. Achei o show muito parecido com o do SWU, ocorrido há dois anos. De lá para cá, só entraram uma duas músicas novas do CD novo. A apresentação também foi meio curta. Podia ter rolado um bis. Contudo, o show valeu o ingresso.


Fiquei para assistir ao show do Metallica, o mais aguardado do dia. Como disse antes, fui pelo Alice in Chains, mas como comprei um ingresso caro fiquei para ver o Metallica também. Rolou um certo atraso, mas enfim começaram a sair do palco as primeiras batidas. Um fã, perto de mim, dizia: “O Lars já está nervoso lá na bateria. Deve começar logo.” Não deu outra. Pouco tempo depois o show começou.


Apesar de não ser fã do Metallica, admito que o show deles foi melhor. Havia mais interação, mais carisma, mais potência. O público, a “Metallica Family”, participou bastante, cantando os clássicos da banda. A cena comum era ver namorados saindo com as namoradas do meio da multidão, que tapavam os ouvidos por não suportarem o som alto. As feministas vão me odiar, mas Metallica não é para fracos. Piada, viu gente.


Antes do show só havia ouvido as músicas do Black Album, o mais vendido da banda. Mas até que gostei do show do Metallica. Fiquei até o fim, mesmo desconhecendo várias músicas da setlist. Ou foi o que eu achei. No dia seguinte, soube que rolou um bis no qual eles tocaram mais três músicas. Não me lamentei, pois estava cansado mesmo.
Saí satisfeito, com a sensação de dever cumprido. Devo retornar ao próximo Rock in Rio em 2015. Se tiver uma banda de ROCK que eu goste, claro. 

domingo, 8 de setembro de 2013

Imersão Literária

Ganhei convites para a Bienal do Livro. Mais uma vez, para variar, convidei pessoas para ir comigo que recusaram ou disseram que iam pensar no caso. Entre a negação e a indecisão, optei por ir só. Melhor do que ficar em casa se lamentando. Fui, sem pensar duas vezes.


Dentro do ônibus, já fui entrando no clima da aventura. O destino da maioria dos passageiros era o mesmo que o meu: a Bienal do Livro, no Riocentro. Como a viagem era longa, resolvi me entreter, escutando a conversa alheia, sem claro, falar nada. Não iria me intrometer na conversa dos outros. Além disso, sempre é bom lembrar que um homem sábio fala pouco e ouve muito. 
Minha atenção se deteve em dois grupos. O primeiro era formado por um cara e uma garota. Não formavam um casal, pois era visível que o cara era gay. O outro grupo era formado por três amigas universitárias. Percebi isso, pois elas conversavam sobre desventuras e trivialidades da vida acadêmica.
Eu tinha a posse de três convites. Um, obviamente, era para mim e os outros dois iriam sobrar, já que fui sozinho. Havia levado os convites extras para dá-los para alguém. Quis fazer uma boa ação, trazer alegria para um transeunte qualquer. Ia dá-los para as meninas, mas como elas eram três e os convites eram dois, resolvi não fazê-lo. Isso poderia criar algum tipo de atrito entre elas. Não seria eu o causador de um racha, em um grupo tão simpático.
A outra opção, até o momento, era o “casal”. Contudo, decidi não presenteá-los. Não eram merecedores. Motivo: estavam caçoando de um colega de trabalho deficiente. Tenho um senso de humor bastante liberal, mas com limites. Não acho engraçado caçoar de um deficiente. Sem contar que o ato foi feito pelas costas. Não me importo se a pessoa é gay ou heterossexual. Se ela agir como babaca, terá meu desprezo. Simples. Não os censurei, mas também não dei a eles meus convites.


Ao chegar ao Riocentro, dei os dois convites sobressalentes para a primeira dupla que avistei. Isso antes de resolver cogitar uma análise minuciosa da alma dos mesmos. Ouvi os agradecimentos que a formalidade e a boa educação exigem. Andei um pouco e enfim adentrei ao evento.
Ao entrar, me surpreendi com o quanto o lugar estava cheio. E olha que era sábado e feriado. Havia muitas pessoas, realmente interessadas em livros. Não sei porquê, mas sempre tive a impressão de que as pessoas liam pouco. Mito derrubado. Além disso, devo admitir, que esboçara estereótipos dos leitores que porventura iria encontrar na Bienal. Imaginava que ia me deparar com um monte de garotas de óculos e cabelo preso, além de uns garotos parecidos com o Harry Potter.


Contudo, havia todo tipo de pessoa: jovens, adultos, crianças, roqueiros, cristãos, hipsters, nerds. Foi a primeira vez que fui a um lugar em que consegui encontrar três pessoas vestindo uma camiseta do Alice in Chains, uma das minhas bandas favoritas. Nada mal para um evento literário e, de certo modo, restrito.


Não que a Bienal seja elitista. O fato é que, no Brasil, um livro custa bem caro e, para mim, não faz muito sentido ir até uma grande feira de livros se você não for comprar nenhum. Deixei de ir ao evento em outras oportunidades por este motivo. Na verdade, eu só havia ido à Bienal do Livro uma única vez, quando era criança. Pelo que me lembro, sequer ganhei um livro. Entretanto, para uma criança, só o passeio já vale a pena. Na Bienal deste ano, por exemplo, vi uma criança feliz contando para mãe que havia visto o Ziraldo e o Mauricio de Sousa.


Porém, devo ressaltar que alguns expositores estavam dando descontos bastante generosos. Comprei dois livros com 20% de desconto cada. Outros, porém, se aproveitaram da ocasião, fazendo propaganda enganosa. Em dado momento do passeio, avistei um stand que dizia vender todos os seus livros com desconto de 50%. Estranhei, pois considerando a oferta, o lugar estava com pouco movimento. Interessei-me por um livro de história do cinema e perguntei o preço. A vendedora disse que custava 80 reais. Com ou sem o desconto estava demasiadamente caro para mim. Meti o pé.
Fui andando pela Bienal e como esperado, me vi cercado de livros por todas as partes. Era impossível fazer uma análise minuciosa de todo lugar, como pretendia. Desisti e fui escolhendo os stands e livros que queria ver por puro instinto. Mesmo assim, me senti desorientado, sem a menor ideia de para aonde ir. Não sou um assíduo frequentador de livrarias. Na verdade, sequer sou um assíduo leitor de livros. Leio muita porcaria, mas só na internet. No presente momento da minha vida, estou tentando fazer as pazes com os impressos, por isso fui à Bienal. Fui sem saber o que queria e acabei comprando dois livros que conhecia apenas de nome. Na próxima vez que eu for, farei uma lista previamente, antes de ir a caça.


Devo destacar que o público de quadrinhos ainda tem grande força. Na Bienal, os stands relacionados a quadrinhos e mangás estavam lotados. A maioria tinha até fila para entrar. Não me surpreende. Quadrinhos e literatura andam lado a lado.
O que estranhei mesmo foi a presença dos stands de algumas empresas na Bienal. Empresas de segmentos incompatíveis com a literatura, como telecomunicações, energia e internet. Quem sou eu para barrar alguém mas o que elas tinham a ver com livros? Tão incoerente quanto a Ivete Sangalo no Rock in Rio. Sem contar o One Direction. Sério: vi One Direction em vários pontos da Bienal do Livro. O que é One Direction? Francamente? Vou soar bobo e infantil com minha resposta clichê, mas ela é sincera: não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Não tenho mais paciência para discutir certos modismos.
Após ter comprado dois livros, vaguei pelos três enormes pavilhões da Bienal do Livro evento a esmo, sempre esbarrando em um monte de pessoas pelo caminho. Por um lado, isso até que foi bom. Passo tanto tempo trancafiado no meu quarto que, às vezes, acho realmente que sou especial. É bom sair e ficar no meio da muvuca de vez em quando, para ter noção do quão sou insignificante. Tal qual uma formiguinha em um formigueiro. Por essas e outras, sou a favor de experiências coletivas.


Sem contar a questão existencial. Eu existo! Sei disso, porque outras pessoas me viram. Tem dias que me sinto como um fantasma, morto há muito tempo... Dois vendedores me chamaram de “bróder”, provavelmente, por causa da minha atual barba setentista, que remete à blaxpoitation. Outros me chamaram de “professor”, talvez pela boina e óculos que eu estava usando. Por último, um garoto, do nada, veio apertar minha mão e me parabenizar pela camisa do mangá Bakuman, que eu trajava. Não se vê muitas pessoas com uma camisa dessas por ai. Eu pelo menos nunca vi.


Acho que interagi com mais seres humanos em uma tarde na Bienal do que no último mês inteiro na faculdade. Gostei, pretendo voltar. Por motivos literários e não literários. Pena que só daqui a dois anos. Quem sabe, na próxima vez, um livro meu pode estar lá à venda. Quem sabe.